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UM CONTO DE NATAL
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Frank Capra
....Frank Capra, mestre em retratar o anseio do povo americano, soube como utilizar-se dos roteiros de seus filmes de forma positiva; não para manipular as pessoas, mas para enchê-las de esperanças em si próprias e no país em que viviam. Apesar de continuamente ser taxado de utópico e manipulador dos sentimentos do povo americano, não há dúvida de que na balança da verdade e do tempo, Frank Capra sai ileso e com a dignidade sem nenhum arranhão. Sua obra se caracteriza por ser um alerta ao retorno dos valores éticos e morais e Adorável Vagabundo é um clássico exemplo disso e que ajudou a fomentar um grande otimismo na época da Depressão. Este belo clássico, juntamente com outro belíssimo clássico do diretor, A Felicidade Não se Compra, são, para mim, os dois exemplares mais dignos sobre a redenção e o encontro do sentido da vida do homem, justamente na noite de Natal!
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Adorável Vagabundo..
..A primeira vez que assisti ao magnífico Adorável Vagabundo foi na minha juventude, em plena adolescência; período em que muito da formação do jovem sofre influência do meio em que vive. Lembro-me que foi numa dessas famosas Sessões da Tarde; tempos em que a TV passava bons filmes para bons moços assistirem. Hoje, infelizmente, passa maus filmes para a formação de maus moços para a sociedade. Até parece que os programadores de filmes para TV pensam que os jovens de hoje são débeis mentais e não têm opinião própria; e por isso ficam entulhando-os de mais e mais violência, pornografia, distorção dos valores humanos e todo o tipo de imbecilidade e estupidez. Felizmente, os jovens de hoje não são nem um pouco débeis mentais (assim como nunca foram!), e muitos dão o grito de liberdade cinematográfica ao pesquisarem atentamente o que existe de bom sob a poeira do tempo destes filmes antigos e em preto e branco e que os críticos chamam de clássicos do cinema. Já tive oportunidade, mais de uma vez, de constatar a satisfação de alguém que descobre um tesouro; é um sorriso radiante e indescritível, que cartão de crédito algum pode pagar. A descoberta de que, necessariamente, não é obrigado a gostar apenas da arte do seu tempo; mas sim, de que a arte de qualquer época lhe pertence, de que não é obrigado a ficar submetido à manipulação de péssimo gosto da programação televisiva, de que existe uma locadora logo ali na esquina!
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É exatamente disso que trata o filme, da manipulação do público pela mídia. Precisamente da mídia escrita; e o que é pior, por uma mulher, por uma jornalista que na iminência de demissão, publica sua última matéria, um grito no estertor da morte. Uma famigerada carta criada por ela mesma e assinada por um tal John Doe comunicando que cometerá suicídio na noite de Natal em protesto contra a corrupção e a pobreza que assolam a América. A América que caminhava na dureza dos Anos de Depressão, a América que sofria o golpe desferido pela economia em baixa e o desemprego em alta, a América dos homens e mulheres em caravanas (Ver: As Vinhas da Ira, de John Ford) ora para o sul, ora para o norte; em busca de empregos e a dignidade restabelecida. A dignidade e o orgulho de viver num país das oportunidades, num país onde o trabalho e o trabalhador eram abençoados. A mesma América dos poderosos, dos corruptos, dos manipuladores; mas também dos sonhadores e idealistas; e por fim, dos Joões Ninguém dos becos e calçadas das grandes e pequenas cidades. Nesta América que Ann Mitchell (Barbara Stanwyck, no auge de sua beleza) lança sua cartada final naquilo que era sua luta para manter-se em pé no caos que assolava o desemprego no país. Não ponderou sobre sua atitude e não imaginou sobre suas conseqüências. Criou um mito que para alguns era um monstro, mas que para a maioria do povo americano era uma bandeira de esperança numa época desesperançada. Como cada povo tem o herói que precisa e cada herói tem o povo que merece; em pouco tempo, do nada, o nada, passou a existir. Instituições, comitês, associações, clubes e todo o tipo de comunidade de momento insurgem em defesa do herói nacional, onde em cada semblante, John Doe passa a ser alguém e como tal existe, de fato, e não pode ser morto, a não ser que se suicide na noite do nascimento de um outro Salvador, que parece, poucos se lembram. Como diz a famosa frase de O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford, se a lenda se torna fato, imprima a lenda. Diante disso, Ann (a mando do jornal) tem que buscar um rosto e um corpo para sua criação e encontra no vagabundo (um fracassado ex-jogador de beisebol) Long John Willoughby (Gary Cooper, fantástico!) a personificação que procurava. Arrasta-o para o delírio de sua criação, mas a popularidade de John Doe cresce de tal modo que fica difícil manter o controle da situação. De um lado é o povo que busca no herói o antídoto para sua desgraça, de outro são os poderosos e manipuladores que não querem perder a chance para tirar algum proveito de todo aquele tumulto social. Surgem como donos e senhores do criador e da criatura e os submetem ao poder de suas vontades capitalistas. Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Mas parecia que John Doe não tinha juízo; ou melhor, tinha, isto sim, dignidade e orgulho de ser um cidadão americano. Por isso, caminhamos para o último ato.
É exatamente disso que trata o filme, da manipulação do público pela mídia. Precisamente da mídia escrita; e o que é pior, por uma mulher, por uma jornalista que na iminência de demissão, publica sua última matéria, um grito no estertor da morte. Uma famigerada carta criada por ela mesma e assinada por um tal John Doe comunicando que cometerá suicídio na noite de Natal em protesto contra a corrupção e a pobreza que assolam a América. A América que caminhava na dureza dos Anos de Depressão, a América que sofria o golpe desferido pela economia em baixa e o desemprego em alta, a América dos homens e mulheres em caravanas (Ver: As Vinhas da Ira, de John Ford) ora para o sul, ora para o norte; em busca de empregos e a dignidade restabelecida. A dignidade e o orgulho de viver num país das oportunidades, num país onde o trabalho e o trabalhador eram abençoados. A mesma América dos poderosos, dos corruptos, dos manipuladores; mas também dos sonhadores e idealistas; e por fim, dos Joões Ninguém dos becos e calçadas das grandes e pequenas cidades. Nesta América que Ann Mitchell (Barbara Stanwyck, no auge de sua beleza) lança sua cartada final naquilo que era sua luta para manter-se em pé no caos que assolava o desemprego no país. Não ponderou sobre sua atitude e não imaginou sobre suas conseqüências. Criou um mito que para alguns era um monstro, mas que para a maioria do povo americano era uma bandeira de esperança numa época desesperançada. Como cada povo tem o herói que precisa e cada herói tem o povo que merece; em pouco tempo, do nada, o nada, passou a existir. Instituições, comitês, associações, clubes e todo o tipo de comunidade de momento insurgem em defesa do herói nacional, onde em cada semblante, John Doe passa a ser alguém e como tal existe, de fato, e não pode ser morto, a não ser que se suicide na noite do nascimento de um outro Salvador, que parece, poucos se lembram. Como diz a famosa frase de O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford, se a lenda se torna fato, imprima a lenda. Diante disso, Ann (a mando do jornal) tem que buscar um rosto e um corpo para sua criação e encontra no vagabundo (um fracassado ex-jogador de beisebol) Long John Willoughby (Gary Cooper, fantástico!) a personificação que procurava. Arrasta-o para o delírio de sua criação, mas a popularidade de John Doe cresce de tal modo que fica difícil manter o controle da situação. De um lado é o povo que busca no herói o antídoto para sua desgraça, de outro são os poderosos e manipuladores que não querem perder a chance para tirar algum proveito de todo aquele tumulto social. Surgem como donos e senhores do criador e da criatura e os submetem ao poder de suas vontades capitalistas. Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Mas parecia que John Doe não tinha juízo; ou melhor, tinha, isto sim, dignidade e orgulho de ser um cidadão americano. Por isso, caminhamos para o último ato.
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Cena final; John Doe vai se atirar no vazio para poder encher o vazio da existência de muita gente, e ao mesmo tempo esvaziar a prepotência daqueles que se julgam os Senhores, os Donos da América. O que todos se esqueceram é que dentro daquele corpo de ninguém, existia alguém que tinha sua própria opinião acerca de todo aquele drama. Apenas seu fiel escudeiro (Walter Brennan, competente como sempre) o conhecia de fato, e apenas a sua criadora ele o deu a conhecer de fato; e isto o seu olhar carregava para o ato derradeiro.
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Neste derradeiro momento, o coração de Ann Mitchell bate descompassadamente e numa noite em que a morte aguardava ansiosa, calçada abaixo, a vida ressurge nesta mesma noite que é, na verdade, de vida, e vida nova para quem encontra a redenção.
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Um final maravilhoso, só não é o melhor final do cinema, porque existem Casablanca, ...E o Vento Levou, A Felicidade Não Se Compra, etc.
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